Brasil Solar: Estabilidade Sazonal e Expansão Estratégica na Diagonal da América do Sul
Resumo
Similarmente ao nosso Data Story Transição na Geração de Energia Elétrica, esse Data Story também pretende analisar o cenário energético do país; nesse caso, buscamos avaliar como o Brasil se posiciona globalmente no desenvolvimento da energia solar. A partir de séries temporais, que são coleções de informações feitas em sequência, ao longo do tempo, comparamos a geração de energia solar no Brasil com aquela da Austrália, China, Alemanha e Estados Unidos, além do cenário internacional geral. Apresentamos também variáveis como os biomas terrestres, distribuídos em uma visualização cartográfica de dados, e o impacto da sazonalidade na geração da energia solar, para o Brasil e para outros países.
Continue lendo o Data Story para descobrir os resultados e as conclusões dos nossos estudos!
Sol constante: a vantagem comparativa brasileira na energia solar
Moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza” — a célebre frase de Jorge Ben poderia muito bem ser o ponto de partida para explicar por que o Brasil desponta no cenário global da energia solar.
Enquanto países como a Alemanha veem sua produção solar despencar nas mudanças de estação, o Brasil mantém uma trajetória de geração estável ao longo das sucessões de equinócios e solstícios. Os dados da Ember mostram que, mesmo no inverno, não há quedas significativas na potência gerada — um privilégio climático e geográfico que ajuda a dar previsibilidade e segurança ao setor elétrico.
Outro efeito da blindagem dos efeitos sazonais pode ser visto na comparação entre as curvas em vermelho que mostram as tendências. O Brasil associa-se a uma curva que praticamente não é remodelada pelos efeitos das estações e com inclinação mais acentuada que a dos outros países. Em outras palavras, a baixa influência da sazonalidade na geração de energia solar brasileira contribui para a tendência de crecimento dessa opção energética em nosso país.
Energia Solar: Séria temporal de geração
Usando técnicas de séries temporais é possível medir a força da sazonalidade e da tendência associadas a cada um dos gráficos acima. Essa força está associada a um índice que varia entre zero (menor força) e um (maior força). Veja o resultado desse cálculo.
O gráfico da esquerda mostra que a sazonalidade não é relevante na geração de energia solar no Brasil. O cenário é distinto em outros países, principalmente na Alemanha, líder do ranking, onde as variações sazonais são bem mais acentuadas. Já o segundo gráfico evidencia que todas as áreas analisadas apresentam forte tendência de crescimento, reforçando que a energia solar se consolida como uma aposta estratégica para a transição energética, independentemente da latitude dos países.
A opção mundial crescente da energia solar é uma boa notícia frente a ataques que a legitimidade das fontes de energia renovável vêm sofrendo. A plausibilidade das fotovoltáicas deve ser associada à diversidade e complementaridade das fontes de energia, especialmente a hídrica ainda a mais eficiente no Brasil. Em síntese: o claro entendimento do papel das energias renováveis no quadro geral é vital para enfrentamento das ameaças cllimáticas.
A geografia como aliada
O mapa da expansão solar revela uma transformação em andamento:
Usinas em operação — espalhadas por todos os biomas, mesmo no Pantanal e Amazônia, onde se observam focos de concentração de milhares de unidades de baixa potência.
Novos empreendimentos — concentram-se principalmente na porção brasileira da chamada diagonal da América do Sul, que cruza Caatinga e Cerrado. Essa faixa apresenta alta incidência solar, baixa nebulosidade e extensas áreas disponíveis com relativo baixo impacto ambiental, tornando-se o epicentro da próxima onda de crescimento. Vale observar pelo tamanho do círculo que essas novas geradoras apresentam potência homologada em valores bem mais elevados do que as em operação atualmente.
Distribuição da potência gerada entre os seis biomas terrestres
Biomas do Brasil
Potência em MW
O futuro que já começou
O contraste entre a distribuição atual e os projetos em desenvolvimento sugere que está em curso uma mudança estratégica: maior foco nas regiões com melhor performance solar e menor impacto sazonal. Dados do ONS ajudam a dar uma dimensão do potencial da energia solar. No Brasil os maiores índice de irradiação solar localizam-se no sudoeste da Bahia, com valores entre 2000 e 2300 kWh/m2. A região Sul é onde há menos irradiação (1500 a 1700 kW/m2). Se compararmos com a Europa, os maiores valores daquele continente ficam em torno de 1700 kW/m2 no sul da Espanha.
A geografia estratégica da expansão da energia solar pode aumentar a competitividade brasileira no setor, atraindo investimentos e fortalecendo o papel do país na transição energética global. Por outro lado, há a necessidade de diálogos mais frequentes com as comunidades que abrigam os projetos de energia renovável: quais são suas demandas, os seus receios e as salvaguardas propostas aos projetos. A legitimidade se conquista em entender e avançar nas pautas das várias partes interessadas. Esse pode ser um tema para uma próxima história de dados.